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A TRISTE VIDA DE UM GATO DE RUA
Era uma vez um gato chamado Leopoldo. Sempre quis começar um conto com essas três palavras: era uma vez. É, dos clichês, o mais atraente, porque dá à estória que está para começar um clima de fantasia, e logo se espera que a mesma acabe com e foram felizes para sempre. Gosto que minhas estórias tenham um teor fantástico, pois sempre me identifiquei com os contos de fadas, simpatizo com o otimismo impresso neles, e, mesmo agora que pretendo relatar fatos reais e dramáticos, começar este conto com era uma vez faz com que essa realidade excessivamente triste pareça distante da que se vive, e talvez se menospreze, de uma forma inocente, toda a dor contida nos acontecimentos para supervalorizar apenas os bons ensinamentos que a moral da história trará. Dessa forma, para os que querem ler um conto de fadas, esta será a estória de um felino que superou todas as dificuldades para ser bem-tratado e feliz, e para os que querem a verdade, esta será a história de um gato de rua e de sua morte drástica. E começa assim: Era uma vez um gato chamado Leopoldo. Nascido na esquina 22 de um conjunto habitacional qualquer, ele viveu suas primeiras semanas sob os cuidados de uma mãe cautelosa, que veio a falecer atropelada por um caminhão de lixo, deixando Leopoldo e seus dois irmãos sujeitos aos mais diversos perigos que a rua oferecia.
Branquinho tinha um sobrinho que vinha visitá-lo às vezes, uma criança de oito anos que adorava brincar com Leopoldo. O menino brincava de prender a respiração do gato, soltando apenas quando este já estava à beira da morte, esse era o único problema de morar ali com Branquinho, mas, sem dúvida, era um problema menor do que os que ele enfrentara vivendo na rua. Numa dessas vindas de Toc-Toc, o sobrinho, Leopoldo decidiu sair de casa pra não ter que aturar as brincadeiras doentias do garoto. Leopoldo não entendia essa necessidade que os humanos tinham de despejar sua agressividade em qualquer coisa que fosse; essa forma vaidosa de lidar com a suposta superioridade, como se, pelo fato de serem maiores e mais fortes, tivessem o direito à impunidade perante seres mais fracos; essa maneira egocêntrica de desrespeitar as diferenças. O gato sociólogo subiu para tomar ar nos telhados.
Neste parágrafo, finalmente, o gato morrerá. Aqui chegamos ao ápice da história para aqueles que estão lendo a verdade; para os que lêem o conto de fadas, o ápice ainda está por vir. Andando pelos telhados da vizinhança, Leopoldo sentiu um cheiro delicioso invadir suas narinas, chegando ao pulmão como se este fosse um estômago e quase saciando uma fome que não existia. Seguiu aquele odor como se tivesse sido laçado e estivesse sendo arrastado ao encontro do laçador. Era um quintal com uma goiabeira e algumas folhas secas no chão de terra batida. Próximo às raízes da árvore, repousava um enorme filé de carne de boi, a fonte do cheiro que atraíra o gato. Desceu o muro e foi direto comer a carne. Mordia rápido e voraz, há tempos não sentia aquele sabor inebriante, pois Branquinho tratava-o como se trata um bebê humano, com todos os cuidados de um pai coruja: comia apenas ração e tomava leite, dificilmente conseguia arrancar de seu dono um petisco como aquele. Acabou a carne rapidamente e voltou a subir o muro, depois o telhado e logo estava descendo pela frente da casa, na rua onde fora encontrado por seu dono, mas foi neste momento, enquanto dava seu último salto, que Leopoldo sentiu a pontada no estômago, e a dor que se espalhava por todo o corpo, e a respiração difícil, como se o ar estivesse sendo puxado através de um canudo, foi nesse instante que a dor mal possibilitou que continuasse a se mover, chegou até a porta de Branquinho e miou alto, seus últimos miados. Foi nesse instante também que os olhos embaçaram e sequer conseguiram reconhecer Bolinha saindo de sua casa e gritando ofensas a Branquinho, foi nessa hora que os ouvidos começaram a falhar e ele não entendeu o que Branquinho esbravejava para a mulher, não conseguiu entender que ela dizia que a culpa era dele, que o veneno era pra matar o gato que sujava seu quintal, foi nesse miserável minuto que ele perdeu o tato e não sentiu o último abraço de seu dono, perdeu a visão e não viu as lágrimas que escorriam dos olhos de Branquinho, perdeu-se de si e não se foi mais nada. O gato poeta morreu estrebuchando na calçada, como morrem os animais de rua (vide mendigos, loucos e andarilhos).
Quando chegou aqui, Leopoldo estava sereno, triste como uma pedra, de uma serenidade vegetal, sábia. Primeiro perguntou-me se Deus existia, pois não entendia como este pudera, em um castigo dirigido aos seres humanos devido sua fraqueza diante das tentações, acabar atingido todas as criaturas vivas com pestilências como a praga da dor e da fome. Falava calmamente, expunha suas meditações mais amargas causadas pela decepção de se morrer. Queria saber se era justo que a raça humana pudesse desfrutar de benefícios conseguidos pelo sofrimento de outros bichos, se era justo que todos pagassem por um erro irracional dos semelhantes de Deus. Não respondi a nenhum dos questionamentos do gato morto. Após ouvir toda a dor que aquele gênio sofrera, perguntei-lhe apenas se ele gostaria de renascer, e dessa vez como um humano, para que pudesse ter a oportunidade de não ser tratado como um objeto, um utensílio de outra raça. Leopoldo respondeu-me que jamais se sujeitaria a uma circunstância como aquela. Sabia que a cultura está baseada na sobrevivência do mais forte e não queria pensar em si mesmo como um ser que maltrata criaturas como a que ele fora, não queria se imaginar como alguém que abusa de um poder que lhe foi concedido para maltratar os mais fracos, ele sabia que, se aceitasse aquela proposta, se tornaria igual a todos os humanos, e não suportava sequer a idéia de poder vir a ser algo que despreza. E eis o meu conto de fadas: Leopoldo, o gato antropólogo, olhou-me profundamente, esboçou um sorriso brando e afastou-se saltando entre algumas nuvens. Foi feliz. Para sempre.
Adriano de Oliveira (Drico)
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